Biomarcadores de Alzheimer: o que são, para que servem e quanto custam
"Existe exame de sangue para Alzheimer?" É uma das perguntas que mais recebo no consultório. A resposta, hoje, é sim — mas com ressalvas importantes que fazem diferença na hora de decidir se vale a pena pedir.
Biomarcadores são substâncias medidas no sangue, no líquor ou detectadas por exame de imagem que indicam a presença de placas de beta-amiloide ou emaranhados de proteína tau no cérebro — as duas alterações biológicas que definem a doença de Alzheimer. Eles não substituem a consulta clínica. Servem para confirmar ou descartar uma suspeita que já existe.
Existem três formas de investigar
1. Exame de sangue
É a novidade dos últimos anos. O mais estudado é a p-tau217, tau fosforilada dosada no plasma. No Brasil, o principal exame comercial é o PrecivityAD2 (laboratório Fleury, com parceria internacional), que combina p-tau217 com a razão Aβ42/Aβ40. Outros laboratórios — Richet, DASA/Hermes Pardini, Bioclínico — já oferecem exames semelhantes.
Custo aproximado: R$ 3.500 a R$ 4.000
Não é coberto por planos de saúde nem SUS
Resultado sai em cerca de 20 dias (parte do processamento é feita nos EUA)
Indicado apenas para quem já tem sintomas de declínio cognitivo, geralmente acima de 55 anos — não é exame de rastreamento em pessoa sem queixa
Precisão: em estudos comparativos, chega a cerca de 88-90% de concordância com o PET amiloide. Mas não é validado para população brasileira (em 2026)
2. Líquor (punção lombar)
Mede diretamente no líquido que banha o cérebro os níveis de beta-amiloide e tau. É o método mais tradicional entre os biomarcadores "invasivos".
Custo aproximado: R$ 3.000 a R$ 3.500
Procedimento seguro, mas exige punção lombar — gera receio em muitos pacientes e familiares, mesmo sendo minimamente invasivo
Vantagem: mais disponível que o PET em muitas cidades, incluindo Belo Horizonte
3. PET amiloide (ou PET tau)
Exame de imagem que mostra diretamente as placas no cérebro. É considerado o padrão-ouro de comparação para os outros dois métodos.
Custo aproximado: R$ 9.000-15.000
Disponível em Belo Horizonte (rede Hermes Pardini/DASA, Felício Rocho, entre outros)
Não é coberto por planos de saúde na maioria dos casos
Maior limitação prática: preço e disponibilidade restrita a poucos centros no país
O exame não é para todo mundo
Isso é o ponto mais importante e o que menos as pessoas entendem. Biomarcador de Alzheimer não é check-up. Ele é indicado quando:
já existe queixa de memória ou outra alteração cognitiva
o quadro clínico é ambíguo e o exame ajuda a diferenciar Alzheimer de outras causas de declínio cognitivo (vascular, por exemplo)
há necessidade de confirmar diagnóstico antes de iniciar tratamentos mais recentes voltados especificamente para Alzheimer
Pedir o exame em quem não tem sintoma nenhum, "por prevenção" ou por ansiedade familiar, não tem indicação validada e pode gerar mais confusão do que resposta.
Resultado positivo não é igual a "tem demência"
Este é o segundo ponto que preciso deixar claro para todo paciente e família. Um biomarcador positivo mostra que existe patologia de Alzheimer no cérebro — não confirma, sozinho, que a pessoa vai desenvolver ou já tem demência. É possível ter placas amiloides no cérebro sem apresentar sintomas relevantes hoje.
O diagnóstico de Alzheimer continua sendo clínico. O biomarcador entra como uma peça a mais — junto com a avaliação cognitiva, a história contada pela família e, quando necessário, exames de imagem estrutural. A interpretação sempre precisa ser feita por quem está acompanhando o caso, considerando idade, outras doenças (diabetes, hipertensão, função renal) e uso de medicações, que podem alterar os níveis dos marcadores.
Perguntas frequentes
Todo idoso com esquecimento deve fazer o exame?
Não. A maioria dos casos de esquecimento é investigada e acompanhada sem necessidade de biomarcador. Ele entra quando há dúvida diagnóstica real.
O exame de sangue substitui o PET amiloide ou o líquor?
Ainda não formalmente. É considerado um exame complementar de alta acurácia, mas os critérios diagnósticos oficiais no Brasil ainda apoiam-se principalmente em PET e líquor como métodos confirmatórios.
Convênio cobre algum desses exames?
Hoje, na prática, nenhum dos três tem cobertura consolidada pelos planos de saúde ou pelo SUS. Isso pode mudar, mas atualmente o custo é particular.
O resultado muda o tratamento?
Pode influenciar a decisão sobre terapias mais recentes voltadas para Alzheimer, que exigem confirmação biológica da doença antes de serem iniciadas. Fora esse contexto, o manejo clínico segue baseado principalmente na avaliação funcional e cognitiva.
Vou fazer o exame e já vou saber se vou ter Alzheimer?
Não é bem assim. O exame fala sobre patologia presente no cérebro agora, não é um prognóstico exato sobre o futuro.
Fontes
Studart-Neto A et al. Biomarcadores da doença de Alzheimer na prática clínica no Brasil. Dementia & Neuropsychologia, 2024. DOI: 10.1590/1980-5764-DN-2024-C001
Fleury Medicina e Saúde — informações sobre PrecivityAD2 (fleury.com.br)
Hermes Pardini — PET-CT amiloide, disponibilidade em Minas Gerais (hermespardini.com.br)
Correio Braziliense / SBH — reportagem sobre chegada do PrecivityAD2 ao Brasil e valores (2023, com dados de custo ainda usados como referência)
Vinci Lab — exame de biomarcadores plasmáticos Memora (vincilab.com.br)
Observação: preços e disponibilidade de laboratórios mudam com frequência — vale confirmar diretamente antes de pedir o exame.