Demência vascular e AVC
A demência vascular é o segundo tipo mais comum de demência, depois do Alzheimer. Ela ocorre quando problemas nos vasos sanguíneos do cérebro comprometem o fornecimento de sangue e causam lesões que afetam a memória e outras funções cognitivas.
O que é demência vascular
No Alzheimer, o problema principal é o acúmulo de proteínas anormais no cérebro. Na demência vascular, o problema é circulatório: o cérebro não recebe sangue suficiente em alguma região, e as células nervosas dessa área são danificadas.
Isso pode acontecer de duas formas principais:
Após um AVC (acidente vascular cerebral): um vaso entope ou se rompe, causando lesão em área específica do cérebro. A perda cognitiva pode aparecer de forma súbita, logo após o AVC.
Por lesões pequenas e acumuladas ao longo do tempo: sem um AVC evidente, o cérebro vai sofrendo danos microscópicos por anos, geralmente por pressão alta, diabetes ou colesterol mal controlados. O declínio cognitivo é mais gradual.
Diferença entre AVC e demência vascular
O AVC é o evento agudo: o momento em que o vaso entope ou se rompe. Pode causar fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, queda da boca, perda de visão — sintomas que aparecem subitamente e exigem atendimento de emergência imediato.
A demência vascular é uma consequência possível do AVC ou de lesões vasculares acumuladas. Nem todo AVC causa demência, mas quem teve AVC tem risco aumentado de desenvolvê-la.
Sintomas da demência vascular
Os sintomas variam conforme a localização e o tamanho das lesões no cérebro. Em geral, incluem:
Dificuldade de concentração e raciocínio lento.
Problemas para planejar e organizar tarefas.
Lentidão para pensar e tomar decisões.
Alterações de humor, irritabilidade ou apatia.
Dificuldade para caminhar (passos curtos, instabilidade).
Perda de controle da bexiga nas fases mais avançadas.
A memória pode ser menos afetada nas fases iniciais do que no Alzheimer — mas isso varia.
Quais são os fatores de risco
Os principais fatores de risco para demência vascular são os mesmos que aumentam o risco de AVC:
Pressão arterial alta (hipertensão)
Diabetes
Colesterol alto
Tabagismo
Fibrilação atrial (arritmia cardíaca)
Obesidade
Sedentarismo
Isso significa que a demência vascular é, em grande parte, prevenível — diferente do Alzheimer, em que a prevenção é mais limitada.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico envolve avaliação clínica detalhada, testes cognitivos e exame de imagem do cérebro. A ressonância magnética é o exame mais útil — ela consegue mostrar lesões vasculares, mesmo pequenas, que não aparecem em tomografias simples.
Existe tratamento
Não existe medicamento que reverta as lesões já existentes. O tratamento foca em dois pontos:
Controlar os fatores de risco para evitar novas lesões: pressão arterial, diabetes, colesterol, anticoagulação quando indicada.
Reabilitação e suporte cognitivo: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e estimulação cognitiva podem ajudar a preservar função e qualidade de vida.
Quando procurar avaliação
Procure avaliação com geriatra ou neurologista se:
O idoso teve AVC e apresentou mudança cognitiva depois.
Há histórico de pressão alta, diabetes ou colesterol mal controlados e surgiu dificuldade de memória ou raciocínio.
A caminhada ficou mais lenta ou instável sem causa ortopédica clara.
Houve mudança de comportamento progressiva ao longo de meses.
Perguntas frequentes
Todo AVC causa demência? Não. Mas quem teve AVC tem risco aumentado de desenvolver demência vascular, especialmente se tiver outros fatores de risco mal controlados. Acompanhamento regular e controle rigoroso dos fatores de risco reduzem esse risco.
Demência vascular e Alzheimer podem ocorrer juntos? Sim. A demência mista — combinação de Alzheimer e componente vascular — é muito comum em idosos. Em muitos casos, os dois processos coexistem no mesmo cérebro.
Pressão alta realmente causa demência? É um fator de risco importante. Hipertensão não controlada ao longo dos anos causa lesões nos vasos do cérebro que aumentam significativamente o risco de demência vascular. O controle da pressão é uma das medidas preventivas mais eficazes disponíveis.
Ressonância normal descarta demência vascular? Reduz a suspeita, mas não descarta totalmente. Lesões muito pequenas podem não aparecer, e o diagnóstico também depende da avaliação clínica e cognitiva.
Fontes
Iadecola C et al. Vascular Cognitive Impairment and Dementia. JACC Scientific Expert Panel. J Am Coll Cardiol. 2019;73(25):3326-3344.
Dichgans M, Leys D. Vascular Cognitive Impairment. Circ Res. 2017;120(3):573-591.
Livingston G et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission. Lancet. 2020;396(10248):413-446.
World Stroke Organization. Global Stroke Fact Sheet 2022.
Idoso parou de andar após internação — o que está acontecendo?
Uma das situações que mais assusta familiares é ver o idoso entrar no hospital andando e sair sem conseguir se levantar da cama. Isso não é coincidência, nem fatalidade. Tem nome, tem explicação e tem tratamento.
O que acontece com o corpo do idoso durante a internação
O período de internação é fisicamente agressivo para o idoso — mesmo quando a doença que motivou a internação foi tratada com sucesso.
Repouso prolongado no leito: a cada dia parado na cama, o idoso perde uma quantidade de massa muscular muito maior do que um adulto jovem. Em poucos dias, essa perda já compromete a capacidade de se levantar e caminhar.
Desnutrição e desidratação: comuns durante internações, enfraquecem ainda mais os músculos.
Delirium: a confusão mental durante a internação é fator de risco independente para perda de mobilidade.
Medicamentos: sedativos, opioides e outros medicamentos usados no hospital aumentam o risco de fraqueza e queda.
Medo de cair: muitos idosos ficam com medo de se movimentar após uma queda ou procedimento, e esse medo por si só pode impedir a recuperação.
Isso tem nome: declínio funcional pós-hospitalização
O declínio funcional pós-hospitalização é reconhecido pela medicina como uma síndrome — ou seja, um conjunto de consequências físicas e cognitivas que ocorrem como efeito colateral da internação, independentemente da doença que a motivou.
Não significa que o médico errou. Significa que a internação, por si só, representa um risco para o idoso, e que a recuperação precisa ser ativa.
Quem tem mais risco
Idosos com mais de 75 anos.
Idosos com demência ou comprometimento cognitivo prévio.
Idosos com fragilidade — aqueles que já tinham dificuldade para se levantar, cansaço excessivo ou perda de peso antes da internação.
Internações longas, especialmente em UTI.
Qualquer período prolongado sem fisioterapia durante a internação.
A recuperação é possível?
Sim — mas ela não acontece sozinha. O idoso que ficou acamado durante a internação não vai simplesmente "se acostumar" a andar de novo. Ele precisa de reabilitação ativa.
Quanto mais cedo começar, melhor o resultado. A fisioterapia iniciada ainda durante a internação reduz significativamente a perda funcional. Quando não foi possível durante a internação, deve começar o quanto antes após a alta.
O que fazer após a alta
Fisioterapia
É o pilar mais importante. O fisioterapeuta vai avaliar a força muscular, o equilíbrio e a marcha, e elaborar um programa de reabilitação progressivo. Dependendo do caso, pode ser feita em clínica, em domicílio ou em ambos.
Nutrição
Proteína é fundamental para reconstruir músculo. Idosos em recuperação têm necessidade aumentada de proteína. Avalie com o médico ou nutricionista se a ingestão alimentar está adequada.
Evitar novo repouso prolongado
Após a alta, o idoso deve ser encorajado a se levantar e se movimentar dentro dos limites de segurança — mesmo que devagar, mesmo que com apoio. Ficar na cama "para descansar" prolonga a recuperação.
Avaliar medicamentos
Alguns medicamentos iniciados durante a internação podem estar contribuindo para fraqueza, tontura ou sedação. Revise a lista de medicamentos com o geriatra após a alta.
Avaliação cognitiva
Se houve delirium durante a internação, é importante avaliar o estado cognitivo após a recuperação — especialmente se o familiar notar que o idoso "não voltou ao mesmo de antes."
Quando procurar o geriatra após a alta
Idealmente, toda alta hospitalar de idoso deve ser seguida de consulta com geriatra em até 7 a 14 dias. Consulte com urgência se:
O idoso não consegue se levantar da cama ou da cadeira sozinho após a alta.
Houve piora cognitiva clara em relação ao estado antes da internação.
O idoso está recusando alimentação ou ingerindo muito pouco.
Há sinais de nova infecção: febre, confusão mental, urina escura, tosse.
Perguntas frequentes
O idoso vai voltar a andar como antes?
Depende de vários fatores: idade, condição prévia, tempo de imobilização e início precoce da reabilitação. Muitos idosos recuperam boa parte da função com reabilitação adequada. Outros recuperam parcialmente. O prognóstico melhora muito quando a fisioterapia começa cedo e a família está engajada.
Quanto tempo dura a recuperação?
Varia muito. Em geral, recuperar a função perdida durante uma internação leva de semanas a meses. Idosos mais frágeis ou com demência podem ter recuperação mais lenta e menos completa.
A família pode ajudar?
Sim, de forma significativa. Encorajar o idoso a se mover, acompanhar as sessões de fisioterapia, garantir alimentação adequada e estar presente nas consultas médicas fazem diferença real na recuperação.
O idoso está com muito medo de cair. O que fazer?
O medo de cair é muito comum após internações e é, por si só, um fator que atrasa a recuperação. Fisioterapia ajuda a trabalhar esse medo de forma gradual e segura. Em alguns casos, avaliação psicológica ou psiquiátrica pode ser indicada.
Preciso de fisioterapia paga? O SUS oferece isso?
O SUS oferece reabilitação física em algumas redes de atenção. Converse com o médico sobre as opções disponíveis na sua cidade. Em Belo Horizonte, existem serviços de referência em reabilitação no sistema público.
Fontes
Creditor MC. Hazards of Hospitalization of the Elderly. Ann Intern Med. 1993;118(3):219-223.
Covinsky KE et al. Loss of Independence in Activities of Daily Living in Older Adults Hospitalized with Medical Illnesses. J Am Geriatr Soc. 2003;51(4):451-458.
Kortebein P et al. Effect of 10 Days of Bed Rest on Skeletal Muscle in Healthy Older Adults. JAMA. 2007;297(16):1772-1774.
Inouye SK et al. Importance of Functional Measures in Predicting Mortality Among Older Hospitalized Patients. JAMA. 1998;279(15):1187-1193.
Sociedad Española de Geriatría y Gerontología. Guía de buenas prácticas en geriatría: síndrome de inmovilidad. 2020.